Blogagem coletiva – E onde eu estava?

 

O blog Mulher Vitrola sugeriu uma blogagem coletiva e eu, que nunca fiz nada parecido, criei coragem pra participar. Confesso que estava meio receosa de inicio, mas quando vi o tema “eu fui, eu tava!”, logo me veio uma ideia na cabeça e eu não sosseguei até botar esse texto no papel – ou, no caso, na tela. Por que? Porque eu logo me lembrei de como eu me relacionava com essa tal história de “eu tava!”, e quis compartilhar um pouco dela por aqui.

“Como será que é fazer parte de algo assim?”, era o que eu me perguntava nas minhas aulas de história. Enquanto estudava grandes eventos em meus livros, eu imaginava qual seria a sensação de estar ali, vivenciando algo que marcou a história da humanidade. Claro que eu era pequena demais para dimensionar o que é o horror de uma guerra, por exemplo, e talvez por isso mesmo que eu sempre me questionava: onde eu estarei quando grandes coisas acontecerem?

Mal me dei conta de que era exatamente isso que estava acontecendo quando, da pequena TV na cantina da escola, fiquei sabendo sobre o atentado de 11 de setembro. Nem percebi também que era isso que rolava quando meu pai me levou às ruas pra ver a festa do penta e eu tentei entoar uma musiquinha pra farrear junto do povo. Aliás, eu nem me toquei da importância do que assistia ao chão do quarto da vizinha quando acompanhei as notícias sobre a eleição de 2002. Ainda era criança na época e, mesmo com todo o simbolismo envolvido, o que me pegou mesmo foi descobrir que Lula ia ganhar a presidência de aniversário. Achei um puta presente.

Acho que só percebi que eu era sim parte destes eventos quando acompanhei a cobertura jornalística da posse do Obama na casa da minha vó. Eu vi um dos fotógrafos com uma lente gigantesca, tentando um bom close do novo presidente, e aquilo me deu um insight. “Isso é a história sendo escrita diante de meus olhos”, eu pensava. “E eu estou aqui”.

Mas é aquilo, né: cuidado com o que deseja. Porque, se tem uma coisa que os livros nos mostram, é que a história é cheia de desastres.

Afinal, eu também estava lá, na sala da minha república, acompanhando ao vivo a votação de um golpe parlamentar, quando um deputado homenageou torturador em rede nacional e nada aconteceu. Eu estava lá, assustada demais para deixar meu cachorro na parte da frente da casa, enquanto pessoas comemoravam violentamente as eleições de 2018. Eu estava lá também, entrando no trabalho e ajeitando os jornais para a leitura do público quando vi a manchete que declarava que a covid-19 era oficialmente uma pandemia. E eu estava lá, acompanhando a cobertura dos protestos, quando chegamos à triste marca de 500 mil mortos – apenas pouco mais de um ano do primeiro caso de covid registrado.

Pois é, eu estive presente em todos esses eventos e testemunhei mais uma vez a história sendo feita. Mas, sendo sincera, eu preferia não estar.

Às vezes me pergunto se gerações futuras olharão pra nossos tempos e terão a mesma sensação que eu tinha ao estudar o passado. Será que elas também vão ter essa curiosidade mórbida de saber o que é viver algo assim? Será que elas vão nos questionar como chegamos às marcas terríveis que chegamos? Será que elas vão se perguntar, assim como fizemos em nossas aulas de história, como fomos capazes de alcançar tamanha barbárie?

Olha, eu até tentaria explicar pra molecada como chegamos nesse absurdo. Eu até poderia elencar uma série de eventos que nos trouxe até aqui e falar sobre como o sistema preferiu o lucro à vida – como sempre. Mas confesso que não saberia dizer como eu estive aqui, vivenciando toda essa angústia e luto, e ainda assim não fui capaz de barrar o negacionismo. Confesso que, ao ler todos aqueles livros, nunca imaginei que o sentimento de impotência seria algo tão presente nas pessoas que vivem os tais eventos históricos. E muito menos imaginei que, no fim, eu seria mais uma sem saber o que fazer em meio ao caos.

É, eu poderei dizer “eu estava lá”. Poderei falar para as novas gerações o que foi o obscurantismo desses tempos e como me esforcei para não ceder à barbárie. Poderei inclusive falar também como eram os tempos em que CPI era mais entretenimento que qualquer reality show. Só espero também compartilhar com elas como construímos dias melhores e mais inspiradores, apesar de tudo.

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Esse texto foi uma grande pira minha, mas tem muitas outras produções nostálgicas rolando! Se quiser conferir, vem aqui dar uma olhada!

E fique a vontade pra me contar aqui embaixo também: onde você estava?

8 comentários em “Blogagem coletiva – E onde eu estava?

  1. Meu grande sonho é ser pai. Praticamente tudo que vivo, de bom e de ruim, eu quase de imediato já imagino como vou contar para meus filhos no futuro. Gosto de guardar quinquilharias por causa disso também.

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    1. Meu pai também guardou várias coisas pra nos mostrar e pra fazer o mesmo para possíveis netos. Uns disquetes gigantes, vinil, calculadoras antigas e afins. Cheio de histórias a respeito, acho demais! 🙂

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  2. Eu já pensei nisso muitas vezes. Quando eu estudava história na escola, como chegamos ao ponto de Hitler ou mesmo aqui no Brasil, com a ditadura? Como que as pessoas chegaram ao absurdo de achar que tudo bem?

    E hoje vejo a situação atual, choro, me desespero, fico com o coração apertado mas entendo que vivi na prática todo esse processo de chegar ao extremo.

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